PARA QUE A VIDA NÃO SEJA UM ETERNO CARNAVAL

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As longilíneas e o "imundinho fashion"

(*) Ucho Haddad

 

Nos últimos dias, o Brasil, que tem se rendido aos quase intermináveis casos de corrupção e aos bizarros atrasos aeroportuários, foi tomado por uma guinada nas notícias do cotidiano. Por algumas horas saiu de cena os imbróglios nos aeroportos nacionais, dando lugar à morte causada pela anorexia, uma doença que a modernidade soube tão bem propalar com a escravatura do corpo.

A grande imprensa, e a menos emoldurada também, se dedicou a comentar a morte de modelos e pessoas ligadas ao mundo da moda, vítimas de uma magreza que impera nesse universo nem sempre compreensível. Veículos de comunicação de massa, que também divulgam as sandices que muitos ousam chamar de criação, colocaram, mais do que rapidamente, seus editores de moda diante das câmeras para escapar de uma culpa que deve ser assumida por todos.

Ser magro passou a ser não um sinônimo de bem-estar, mas senha para um mundo de sucesso tão duvidoso quanto irresponsável. Na verdade, o que importa na vida do ser humano é a felicidade plena, não cabendo a ela (a felicidade) se prender a tamanhos de roupas – esses cada vez menores – e a estereótipos que insanos ousam fixar como sendo padrão de elegância e beleza.

Fustigar o mundo da moda é cair em desgraça por longo e hercúleo período. Há anos, quando arrisquei contestar a irresponsabilidade das publicações tupiniquins de moda, que insistiam em divulgar as já sepultadas saias "balonês" como referência de elegância, fui alvo de um massacre que teve em duas das pontas uma ainda festejada editora de moda e um conhecido costureiro da época. Como sempre, resisti aos ataques e soube impor o meu pensamento, defendendo o interesse dos menos privilegiados – nesse caso as mulheres financeiramente desprovidas – que na condição de vítimas de uma força oculta se endividavam aos borbotões para, dentro dos padrões de então, ganharem as ruas como sem fossem psicodélicos e ambulantes botijões de gás. As tais “balonês” serviram apenas para entupir os cofres de seus inventores, se é que criação ruim pode ser chamada de invento.

Quando migrei da infância para a adolescência, aprendi que era melhor ter uma roupa boa do que dez ruins. De lá para cá, a indústria têxtil passou por várias crises, e incentivar o consumo, mesmo que criminosamente, foi a saída para evitar uma quebradeira em série. E o consumo passou a conviver com a exacerbação, com a mesma velocidade com que meu exíguo guarda-roupa passou a reclamar. Porém, preferi molhar os pés nas lágrimas do armário do que embarcar na loucura do consumo.

Outra incursão contra o mundo da moda se deu por ocasião de uma das edições da badalada São Paulo Fashion Week, quando os “fora dos padrões” se reúnem para festejar o abstracionismo que elegeram como sendo monumento à chiqueza. Esses costuradores de panos são vítimas da bizarrice criativa, pois de outra maneira jamais conseguiriam lugar de destaque. O melhor exemplo da loucura está no próprio hospício, que aos loucos transfere destaque por conta da patologia neurológica muitas vezes irrecuperável.

O que se viu nos últimos dias foi um desfiar de besteiras, normalmente balbuciadas por pessoas comprometidas com esse padrão de beleza (sic) que tem levado pessoas à morte. Quem instituiu a magreza como passaporte para o mundo do sucesso é um irresponsável em potencial, pois as mulheres que o colombiano Fernando Botero exibe em suas milionárias e disputadas telas são deliciosa e sensualmente roliças.

Não faz muito tempo, o jornalista José Simão, em sua hilária e bem humorada maneira de interpretar o mundo, ao se referir à glamourosa Gisele Bündchen disse ser a modelo brasileira um verdadeiro chester. Ou seja, osso com peitão. Assim, rotular de sudário amalucado as roupas que oportunistas chamam de moda não é, nem mesmo de longe, um devaneio ultrapassado.

Por outro lado, beira a incompreensão o fato de as roupas exibidas nas passarelas jamais ganharem as ruas do planeta, uma vez que os seres humanos que as compram nem de longe exibem as medidas que esses loucos das agulhas imaginam existir. Ora, se o padrão de roupa é outro, o de beleza deve acompanhar o mesmo raciocínio, pois as mulheres com as quais nos deparamos diariamente são maravilhosas com seus excessos de curvas e outros detalhes que a cretinice do modismo condena.

Há décadas, quando ainda dividiam o espaço nas feiras livres com sacolas de lona e panos para limpeza, as sempre fiéis e legítimas Havaianas eram consideradas bregas. Hoje, com a sanha do lucro falando mais alto, as sandálias de borracha, agora objeto do desejo de descolados hipócritas, podem ser encontradas nas prateleiras de reluzentes joalherias ou nos pés de famosos e milionários artistas hollywoodianos.

Assim, essa coisa da breguice é uma questão de ponto de vista. E como ponto de vista remete à visão, ninguém deseja contemplar a humanidade caminhando por aí batendo ossos, enquanto alguns espertalhões da moda, para saciar o próprio ego insano, cobram das mulheres uma magreza só vista nos campos de Biafra.

O fato é que esse padrão de beleza que leva à morte está atrelado a uma cadeia de exigências, que começa nos criadores e pára nas publicações especializadas. Fossem verdadeiras as recentes declarações de editoras de moda e profissionais correlatos, de que a tal magreza é uma imposição dos criadores e fabricantes de roupas, a mesma parcela da mídia jamais se calaria, horas depois, por conta da pressão exercida pelo capitalismo da moda. Até porque, como quase sempre ocorre no mundo midiático, não há informação sem o dinheiro do anunciante. Ou seja, a informação, via de regra, chega ao seu destino de forma deturpada. E no mundo da moda não é diferente.

Se a magreza doentia fosse de fato um sinônimo de elegância ou beleza, a exuberante Sophia Loren, belíssima aos setenta e dois anos - uma mulher literalmente de peito e de curvas desejáveis também, não estaria recheando o cobiçado calendário 2007 da Pirelli. E olha que de pneus a Pirelli entende um bocado.

Por isso, minhas magrelas de plantão, não se preocupem mais com a dieta hitleriana a que se submeteram para, em sonho e com muita fome, conquistar uma fama dúbia e um sucesso que inexiste. Não se submetam a esse autoflagelo que serve para transferir poder, fama e dinheiro a uma dúzia de ilógicos. Se a moda é cíclica, como garantem os especialistas, a burrice nela reinante é permanente.

Assim, se a partir de agora estar vivo é estar na moda, só há uma definição para esse criminoso mundo de glamour que tanto as atrai, mas que também mata.

“Imundinho fashion”!

 

(*) Ucho Haddad, 49, é jornalista investigativo, colunista político, poeta, escritor e cronista esportivo. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira (www.wanderleynogueira.com.br), do Inforel (www.inforel.org), da Gazeta do Oeste (http://gazetaoeste.com.br).

Novo espaço, novo desafio

Comentar o cotidiano sempre foi um sonho, uma meta possível e não tão distante. O grande problema, como sempre, era o tempo e sua ausência. Mesmo que tardia, chegou a hora de cuidar desse carnaval em que se transformou o nosso dia-a-dia.

Muitos me perguntam se estou abandonando o jornalismo político. Não, isto não está nos meus planos. Pelo menos por enquanto. Esta é uma tarefa exclusiva do Criador.

Uma nova página significa mais trabalho, mas opinar é algo que se confunde com o ar que respiro. Existir é escrever e vice-versa. É permitir a renovação da alma, do pensamento e da lógica. É acreditar num amanhã diferente.

Lançar este novo espaço só foi possível a partir da tranqüilidade que os parceiros, conquistados nos últimos tempos, têm me proporcionado.

"Foi na trajetória e na genialidade de um engraxate que encontrei os ensinamentos necessários para descobrir que o sucesso de alguém muitas vezes está no brilho do sapato alheio."

Ucho Haddad

[Este é um agradecimento a João Francisco, meu pai, que a partir de uma humilde caixa de madeira, repleta de graxas, panos e escovas, conquistou uma trajetória digna e o respeito de muitos.]

“A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”.

Mahatma Gandhi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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