Retrato paulistano do nordeste
Enfrentando o frio cortante de mais uma dominical manhã em São Paulo, parto para o cumprimento da carestia de alguns milhares de privilegiados brasileiros. Comprar a sacra e necessária comida da semana.
Debaixo das gélidas marquises da Ceasa paulistana, deparo-me com um grisalho senhor que, para se defender do vento, esconde-se sob um intrigante coquetel de agasalhos. É Carlos Cordeiro Valença, um pernambucano de 64 anos que desafia o clima vendendo água de coco gelado. Com a indestrutível garra nordestina - conquistada às custas de arroz, feijão e farinha – o pernambucano acredita que assim conseguirá driblar as dificuldades.
Depois de pouco mais de 27 anos de luta na Capital, Carlos Valença, que se diz primo em segundo grau do cantor Alceu Valença, voltou a São Bento do Una, cidade vizinha a Garanhuns, terra natal do presidente Lula.
Além da saudade que se esvaiu com o tempo, Valença levava o que amealhou na metrópole paulista: dezessete mil reais – o que ele próprio não considera nenhuma fortuna. Lá, comprou seis alqueires de terra e quatro vacas. Mesmo assim, foi obrigado a trabalhar dez horas por dia para ganhar a miséria de R$ 20 por semana, ou seja, um terço do mínimo estabelecido pela Constituição.
Mas será o Nordeste dono de uma legislação que o resto do país desconhece?
Sim, nas tórridas paragens do agreste impera a lei de uma inexplicável sobrevivência abençoada pela força transcendental de Padre Cícero. Na verdade, o “Padim” é merecedor mais de um prêmio Nobel “post mortem” que de uma beatificação. Afinal, faz sobreviver um povo que se alimenta de fé, na falta de uma refeição necessária. São coisas de um gigantismo humano que o mundo há de conhecer. São coisas do nordestino.
A certa altura, atrevo-me a questionar Valença sobre a política do “Fome Zero” e os famigerados R$ 50 distribuídos mensalmente a algumas famílias. Levadas pelo ar, as migalhas de um encharcado pastel de queijo entremeiam o sotaque carregado do homem que dá passagem à verdade cotidiana. A miséria. Por ser personagem de uma triste e desconhecida realidade, com mais lucidez do que qualquer político brasileiro, Valença começa a discorrer sobre os problemas do programa que pretende saciar a fome nacional.
Aquele pernambucano clama por emprego e não por esmola. Com uma clarividência maior que a própria disposição, relata que os míseros R$ 50 produzirão “vagabundos e ladrões”, como já acontece, em todo o agreste nordestino. Afirma com todas as letras que o presidente Lula “tem de arrumar emprego para todos”, pois, do contrário o caos tomará maiores proporções.
Egresso da aridez da miséria, Valença faz de sua profecia uma grande verdade. Vítimas do descaso oficial, os nordestinos recebem, erroneamente, o rótulo de vagabundos quando deveriam ser sinônimos de luta e bravura, características que não são encontradas em muitos brasileiros. A maior prova dessa milagrosa força nordestina está numa cidade chamada São Paulo.
De volta à desvairada paulicéia após 13 meses de agruras, Valença pede ao Padre Cícero que não o mande de volta ao nordeste, enquanto balança inquietantemente os pés, emoldurados por um sapato surrado e guarnecido por nódoas de lama.
Sofrido e verdadeiro, o vendedor de cocos é a antítese do conterrâneo ilustre que chegou ao mais importante cargo do País, usando as promessas e a mentira como trampolim de acesso ao poder. Diferentemente do que tem sido noticiado, Valença é o fiel retrato da realidade brasileira.
Enquanto milhares de famintos nordestinos, muitos deles maltrapilhos, pedem justiça, um bem afortunado pernambucano anda engalanado de lá para cá a falar de fome, quando não, a falar até de “hambre”, arriscando uma tradução ocasional.
Assim, resta-nos pedir a Deus e a seu embaixador no Nordeste, o Padre Cícero, que continuem a abençoar Valença e nossos irmãos nordestinos. Até porque, a sorte do filho ilustre de Garanhuns já chegou, enquanto a de Valença ainda está por vir!
Oh Valença, que orgulho sinto de você!