PARA QUE A VIDA NÃO SEJA UM ETERNO CARNAVAL

uchohaddad.com - 2008

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O Pedro e o Bush moram ao lado

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. - Fernando Pessoa

O que pode parecer uma galhofa qualquer, certamente é o sonho de muitos insanos espalhados pelo mundo. Quem não gostaria de ter o presidente americano como vizinho, mesmo que por algumas parcas horas? Eu não!

Quando, em algum momento, alguém opta pela escrita como ofício de alma, tem de se acostumar com a idéia de um dia estar aqui, outro, ali. Assim é a vida de quem faz do reunir de letras uma profissão. Mesmo tendo um lar, correr atrás da notícia ao redor do mundo exige um endereço para correspondência e outros para fazerem o papel de barraca de tuareg.

Escrever tornou-se um vício tão grande, que atualmente encontro em quase tudo uma razão para, escrevendo, tentar traduzir o que se passa na alma e na mente. Afinal, um dia, com muito preciosismo, Radha Abramo disse que “as letras compõem a palavra apenas para transmitir ao outro nossos sentimentos e nossas idéias”. E se é assim que penso e faço, tantas são as oportunidades de inspiração que o cotidiano tem proporcionado, que o tempo se tornou muito mais escasso e faltante do que sempre foi.

Certa vez, não faz muito tempo, percebi que um som desconhecido interrompia o silêncio do meu trabalho, mas, mesmo que tivesse insistido, não consegui, de chofre, decifrar o que era. Passados alguns dias, descobri que aquilo que ouvira era um som ativo e constante de alguém que acabara de se mudar para perto.

Naquele momento, como escrivão contumaz e incorrigível, coloquei-me a dedilhar o computador e, quando percebi, havia escrito “Sua Majestade, o Vizinho”. Sem conhecer quem acabara de chegar, escrevi palavras – as quais já não sei onde se encontram – que juntas traduziam de forma plena a figura que, dias depois, conheci no elevador. Era Pedro, um adorável menino com no máximo dois anos de idade, o meu novo vizinho.

Muitos dizem que vizinho bom é uma verdadeira loteria, mas alguns, chatos e arrogantes, são do tipo bilhete corrido. Pedro, ao contrário, é um amigo que anima o dia de qualquer um que o encontre pelo caminho, especialmente por seu bom humor e simpatia. Quando não ouço sua voz, sinônimo de energia e perspicácia, logo penso que algo de errado pode estar acontecendo com Pedro.

Mas o que Pedro, o vizinho, tem a ver com Bush, o presidente?

Tudo e nada ao mesmo tempo.

Pedro é a personificação do bem, enquanto Bush é a fulanização do mal.

Se, como vizinho, Pedro proporciona alegria e renova a esperança na vida, Bush, o baby, que nesse final de semana tive o desprazer de tê-lo como vizinho, em Brasília, é sinônimo de tristeza e de certeza de morte.

Muito antes da chegada do Dono do Mundo à corte de Dom Lula I, agentes do serviço secreto americano, disfarçados de tudo e mais um pouco, vasculharam até os mais inacessíveis escaninhos do hotel onde se hospedou o mandatário ianque, como se tal exagero de proteção fosse lhe garantir um bom lugar no paraíso ou, quem sabe, no outro lado da vida. Se é que a vida tem alguma semelhança conceitual com os nostálgicos discos de vinil. Ou seja, dois lados.

Incompreensíveis são as contínuas reverências do mundo a alguém que faz da dor do seu semelhante a poção mágica e sanguinária que transforma os cofres do Tio Sam nas mais douras e ininterruptas cornucópias do planeta. Mas a incoerência humana de fato existe.

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que se fez notar pela lógica do pensamento contestador e anárquico, reuniu sabedoria e precisão – o que nunca lhe faltou - ao dizer: “Se você quer um ano de prosperidade, cultive trigo. Se você quer dez anos de prosperidade, cultive árvores. Se você quer cem anos de prosperidade, cultive pessoas”.

Pedro, o vizinho, não cultiva trigo. Bush, o presidente, manda comprar. Pedro não cultiva árvores. Bush manda cortar. Pedro cultiva pessoas. Bush manda matar.

Mas há diferenças mais simples e menos filosóficas entre Pedro e Bush. Em silêncio, Pedro, o vizinho, em companhia dos pais, chegou para ocupar apenas um apartamento e fazer um barulho prazeroso. Já Bush, que ocupou quase quatro centenas de apartamentos do hotel, chegou fazendo alarde para, depois, impor um silêncio similar ao que reina nos sepulcros daqueles que por sua ordem lá jazem.

O barulho do Pedro me alegra. O silêncio do Bush me assusta. Pedro come pizza na pizzaria da esquina, enquanto Bush não toma outra água que não a que sua comitiva traz dos EUA. Pedro, como ser humano valioso que é, pisa em qualquer chão e joga bola no corredor. Bush, famoso como desumano, só caminha sobre tapetes vermelhos e joga bomba onde bem entender.

Resumindo, entre ser vizinho do Pedro e passar algumas horas ao lado do Bush, a primeira opção é a que vale. Até porque, além de meu amigo, o Pedro tem a vida inteira pela frente, enquanto o Bush, que é inimigo do mundo, desde lá de trás se acostumou com a idéia de tirar vidas. A minha sorte é que, ao voltar para casa, sabe Deus quando, vou poder prazerosamente rever o Pedro, meu vizinho. Já o presidente Bush, espero não vê-lo pela frente jamais.

Assim, Pedro, na condição de enxerido, só posso lhe dizer para que vá em frente, pois, mesmo não sendo o dono do mundo, ele é todo seu. E se um dia você matar alguém, certamente será de susto.

 

Novo espaço, novo desafio

Comentar o cotidiano sempre foi um sonho, uma meta possível e não tão distante. O grande problema, como sempre, era o tempo e sua ausência. Mesmo que tardia, chegou a hora de cuidar desse carnaval em que se transformou o nosso dia-a-dia.

Muitos me perguntam se estou abandonando o jornalismo político. Não, isto não está nos meus planos. Pelo menos por enquanto. Esta é uma tarefa exclusiva do Criador.

Uma nova página significa mais trabalho, mas opinar é algo que se confunde com o ar que respiro. Existir é escrever e vice-versa. É permitir a renovação da alma, do pensamento e da lógica. É acreditar num amanhã diferente.

Lançar este novo espaço só foi possível a partir da tranqüilidade que os parceiros, conquistados nos últimos tempos, têm me proporcionado.

"Foi na trajetória e na genialidade de um engraxate que encontrei os ensinamentos necessários para descobrir que o sucesso de alguém muitas vezes está no brilho do sapato alheio."

Ucho Haddad

[Este é um agradecimento a João Francisco, meu pai, que a partir de uma humilde caixa de madeira, repleta de graxas, panos e escovas, conquistou uma trajetória digna e o respeito de muitos.]

“A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”.

Mahatma Gandhi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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