PARA QUE A VIDA NÃO SEJA UM ETERNO CARNAVAL

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Paixão descolorida (19.07.2002)

Camisas amarelas começam a escassear no cenário brasileiro. Raras são as bandeiras que ainda restam penduradas em janelas e terraços. Amarradas às antenas dos carros, as esgarçadas fitas verde-amarelas irão sobreviver até a próxima ida ao lava-rápido. O verde-amarelo começa a ser sucesso em outras passarelas, que não a da alma do brasileiro.

Muito distante de uma profecia do apocalipse, o Brasil voltou à sua velha e enfadonha mesmice. Retomou os trilhos do modorrento cotidiano, que num hiato do tempo tomou um desvio da História. A conquista do penta.

Espremidos no funil da opinião pública, diversos jogadores adotaram a teoria do socialmente correto, doando os prêmios pela conquista do pentacampeonato a causas sociais.

Diante do auto-propagandismo demagogo, o povo se envaidece com os seus heróis de aluguel. Poucos sabem que a pseudo-solidariedade será um benéfico escudo tributário que vai aliviar, e muito, a carga de impostos de cada jogador.

Entorpecidos pelo esquecimento, aceitam a adaptação da famosa teoria política do rouba, mas faz. Enfim, o fulano de tal é arrogante, mas ajuda!

Capitalizar sobre a necessidade alheia, expondo à humilhação pública o alvo principal da incompetência governamental, é no mínimo psicopatia.

Panteístas convictos, os caritativos jogadores disputam, entre si, a vaga para candidato a Deus. Bravateiam aos quatro cantos as suas doações, quando o cenário da caridade deveria ser silencioso. Solidariedade como instrumento de marketing é uma infinda falta de responsabilidade.

Como saltimbancos, roubam a atenção dos espectadores ao comparecerem a todos os programas de televisão.

Neste lamaçal de insanidade, a dignidade dos necessitados é achincalhada enquanto muitos se calam. Calam-se por timidez. Calam-se por covardia. Calam-se por falta de patriotismo.

A paixão doentia pelo verde-amarelo vai perdendo a força. Empalidece o orgulho auriverde, esmorece a matiz cidadã.

O fanatismo colorido passa a ser retórica de famosos estilistas internacionais, por conta de um eufemismo cheio de bossa chamado Brasil.

Será que já não é Brazil?

Dias depois da glória do penta, um grupo de descolados paulistanos tentou provar, de forma burra, que a correta ortografia é com Z. Contribuíram para esmaecer as viçosas cores do patriotismo.

Reunidos em torno de uma badalação noturna, os bem-nascidos e endinheirados da Paulicéia conseguiram mostrar a policromia da solidariedade brasileira. Quiçá não seja brazileira!

Um grande evento de socialites arrecadou fundos para fins sociais. O destino do dinheiro?

As famílias dos bombeiros americanos mortos no World Trade Center.

Mas como ficam os milhões de brasileiros famintos e miseráveis?
Que ardam na miséria e afoguem-se na fome!

Mas e a ordem e o progresso?
Deixa pra lá, pois “in God we trust”!

E o Ouviram do Ipiranga?
Nem lembre, pois o negócio é New York, New York!

Mas e o Brasil? Bem, o Brasil...
O Brasil é aquele de sempre!
Bravatas, negociatas e mamatas.

Ah, esses nossos probos representantes de gravatas...

 

Novo espaço, novo desafio

Comentar o cotidiano sempre foi um sonho, uma meta possível e não tão distante. O grande problema, como sempre, era o tempo e sua ausência. Mesmo que tardia, chegou a hora de cuidar desse carnaval em que se transformou o nosso dia-a-dia.

Muitos me perguntam se estou abandonando o jornalismo político. Não, isto não está nos meus planos. Pelo menos por enquanto. Esta é uma tarefa exclusiva do Criador.

Uma nova página significa mais trabalho, mas opinar é algo que se confunde com o ar que respiro. Existir é escrever e vice-versa. É permitir a renovação da alma, do pensamento e da lógica. É acreditar num amanhã diferente.

Lançar este novo espaço só foi possível a partir da tranqüilidade que os parceiros, conquistados nos últimos tempos, têm me proporcionado.

"Foi na trajetória e na genialidade de um engraxate que encontrei os ensinamentos necessários para descobrir que o sucesso de alguém muitas vezes está no brilho do sapato alheio."

Ucho Haddad

[Este é um agradecimento a João Francisco, meu pai, que a partir de uma humilde caixa de madeira, repleta de graxas, panos e escovas, conquistou uma trajetória digna e o respeito de muitos.]

“A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”.

Mahatma Gandhi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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