A Maria que nunca pede socorro
Mesmo discordando que a homenagem às mulheres se restrinja a um único e mísero dia, dedicarei essas linhas a alguém que, mesmo com Socorro no nome, jamais pediu socorro a quem quer que fosse. Falo de uma tal Maria do Socorro. Não se trata de uma tal, mas de uma especial Maria do Socorro de sei lá o quê. A senhora Maria do Socorro.
Se para muitos a Maria do Socorro é aquela mulher de nome tão imponente e comum que carece de uma ajuda mais específica, a que conheci certamente é uma Maria que tem muito mais ajuda a dar do que a pedir, mesmo que sua situação seja de extremo socorro.
Pequena, franzina e de nariz adunque. Cabelos rebeldes sempre presos por um lenço surrado ou algo parecido. Fala estridentemente mansa, que ainda exibe o charme do sotaque nordestino. Assim é Maria do Socorro, carinhosamente chamada por todos de Socorro. Alguém que, muito mais que o próprio nome, tem todo o direito de pedir o socorro a quem quiser. Mas não o faz. Prefere seguir a vida a seu modo, tendo apenas o Socorro no nome e nada mais.
Socorro me foi apresentada pela vida em situação tão inusitada, que sequer imaginei que pudesse conhecer, um dia, alguém tão especial. Quando comecei a buscar explicações mais consistentes sobre o delituoso conflito entre a emocionalidade feminina e a racionalidade masculina, sabia que muitas surpresas viriam. Como de fato vieram.
Socorro é fruto de um convívio edificante com mulheres condenadas pela Justiça e que vivem atrás das grades, mas com a alma livre. Chega a ser um pouco difícil explicar, mas as mulheres são assim. Deliciosamente inexplicáveis!
Sem ter que pedir socorro, volto a falar da Socorro. Um dia, quebrando a minha quase militar decisão de não tomar café, aceitei um convite da Maria do Socorro. Na copa da penitenciária feminina do Tatuapé, na cada vez mais Desvairada Paulicéia, sentei-me e passei conversar com aquela mulher que tinha, como certamente ainda tem, muito socorro a oferecer, mesmo que seu semblante seja de necessidade.
Maria, a do Socorro, começou a relatar sua vida, entremeando os motivos que a fizeram passar um bom tempo longe da tão necessária liberdade. Socorro, como a maioria das mulheres, fora vítima de uma figura masculina. Mas isso não vem ao caso, pelo menos agora.
Em determinado momento de nossa conversa, Socorro, que lavava a louça enquanto eu saboreava um café tão doce quanto sua alma, disse que trabalhava no presídio do alvorecer ao luar, sem que nunca tivesse recebido um kit.
Humildemente mostrei a Socorro minha total ignorância sobre o significado de kit, pelo menos no universo prisional. Imediatamente, Socorro passou a falar sobre um conjunto de produtos de higiene pessoal que as detentas que trabalham dentro dos presídios recebem, ao final de cada mês, das empresas que as empregam.
Diante da inusitada situação, mergulhei no silêncio para tentar entender o que acabara de ouvir. Acostumada às agruras do cotidiano, Socorro repicou como se tudo fosse absolutamente normal em sua vida: "não tem problema, porque só conheci xampu e desodorante depois que vim para a cadeia".
Chega a ser inacreditável, mas Socorro, uma mulher lá pelos seus quarenta anos, estava sendo sincera. Mostrou-me, naqueles escassos segundos, que sua força de mulher era infinitamente maior do que sua possível vaidade feminina.
Socorro passou a fazer parte do meu pensamento, tomando conta do compartimento que dedico aos referenciais de vida que carrego. Passados alguns dias, soube que Socorro ganhou o tal kit.
Quando retornei ao presídio, uma semana mais tarde, não consegui saber qual fora sua sensação ao usar, pela primeira vez, xampu e desodorante. Socorro, ao conquistar a liberdade, voltou para casa. Naquele momento tentei imaginar a felicidade daquela mulher, mas fui incapaz. Certamente porque minha cota de emoção estivesse anos-luz de distância da alegria de alguém que jamais esquecerei.
Assim, valho-me de tal experiência para pedir licença às mulheres para, especialmente hoje, cumprimentar todas aquelas Marias que passam anonimamente pela vida sem pedir Socorro a ninguém. Assim são as mulheres. Imprevisíveis, mágicas, cativantes, fortes, doces, especiais, bravas, apaixonantes... Enfim, são mulheres. São Marias. São aquelas que sempre nos dão socorro, mesmo que não sejam Maria do Socorro.
Se cumprimentá-la pelo Dia Internacional da Mulher seria injusto pelas dificuldades da vida, justo seria pela maneira como as enfrenta.
O mais certo, Maria do Socorro, é dizer que, onde quer que estejas, levar-te-ei como exemplo para onde for!