O churrasco do Lula e o papel higiênico do Bush
Quando Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil entre 1961 e 1966, desembarcou em São Paulo para o lançamento do livro “A Segunda Chance do Brasil: a caminho do primeiro mundo”, boa parte da imprensa brasileira buscou extrair do diplomata, que ficou conhecido como o “embaixador do golpe”, informações inusitadas sobre a revolução de 64 e a participação direta dos EUA no episódio que levou o Brasil ao mais duro período político de toda a sua história.
Homem simples, que nem de longe exibe a arrogância típica que toma conta da maioria que vive na terra do Tio Sam, Lincoln Gordon sempre foi um estudioso dos problemas econômicos do Brasil e da América Latina, atividade que se dedicou com mais afinco depois que deixou a diplomacia. Por ocasião de sua estada no Brasil (2002), Gordon disse, em tom quase profético, que a Alca, do jeito que estava concebida, jamais poderia ser colocada em prática, pois seria mais um golpe ianque contra nações frágeis econômica e comercialmente. Tanto eram verdadeiras as palavras do ex-embaixador, que a última edição da Cúpula das Américas, realizada há dias em Mar Del Plata, não produziu um avanço sequer.
Experimentando vergonhosas derrocadas de popularidade em seus respectivos países, Lula e Bush passaram, então, a acreditar que são interdependentes. Lula crê que Bush irá ajudá-lo a não perder o status de liderança de uma América Latina que, sob a tutela de Hugo Chávez, caminha para um socialismo barato e vergonhoso. No contraponto, Bush acha que Lula pode estancar o despenhadeiro que sua credibilidade interna experimenta, abalada por uma sucessão de escândalos, ao mesmo tempo em que aposta na proximidade do presidente brasileiro para manter um certo controle sobre a porção sul-americana das Américas, que nos últimos anos tem sido alvo de uma “esquerdização” contínua, preocupante e fajuta.
Se a Cúpula das Américas não produziu resultados positivos, a vinda de George W. Bush ao Brasil muito menos. Principalmente se considerarmos que sob a ótica da política pura e simples, o Brasil e o EUA têm posições antagônicas. No âmbito comercial, o “pit stop” de Bush, o baby, serviu para o presidente Lula mostrar ao mundo que a carne bovina brasileira é inofensiva, o que pode amenizar ligeiramente as notícias sobre a febre aftosa que têm percorrido o mundo.
Decidido a terminar seus dias como presidente na Granja do Torto – a reforma do Palácio da Alvorada parece infindável –, Lula convidou George Walker Bush e sua comitiva para um churrasco, o que pode ter deixado a impressão, a olhos terceiros, de que o ex-torneiro mecânico que assumiu o comando da Terra Brasilis é um homem poderoso e de prestígio, situação que todos os brasileiros sabem ser diametralmente oposta.
Para compreender o apego de Lula ao poder e o respectivo fiasco político em que se transformou, faz-se necessário voltar no tempo, mais precisamente a 1944, ano em que o austríaco Karl Polanyi publicou o livro “A Grande Transformação”. Considerado até recentemente como um clássico ultrapassado, o livro de Polanyi é mais atual do que nunca, principalmente sob o prisma da realidade política latino-americana.
Polanyi, que o mínimo que ouviu à época foi ser chamado de polêmico, mostrou que a sociedade mundial, querendo ou não, vivia e ainda vive sob o manto do capitalismo, um empirismo demoníaco que impinge ao ser humano as duras e vorazes regras do mercado. Para contrapor o galopante avanço da chamada selvageria capitalista, o esquerdismo de folhetim, do qual Lula faz parte, sempre apresentou o socialismo como a solução milagrosa para as mazelas do mundo. Tanto é assim, que, onde quer que vá, Lula fala sem cansar em eliminar a fome no mundo, mas não conseguiu resolver o mesmo problema no quintal da própria casa.
Muito antes de convidar Bush para um malfadado churrasco na Granja do Torto, Lula promoveu o milagre de fazer de Karl Polanyi um pensador moderno e atual, que, consideradas algumas pequenas e ligeiras adequações, parece ter escrito “A Grande Transformação” a pedido dos “Sinhozinhos Maltas” da esquerda festiva da América Latina.
Lula, a exemplo de outros mandatários que chegaram ao poder sob a égide falaciosa de radicais mudanças sócio-econômicas, como carrapato agarrou-se às mais ortodoxas teorias econômicas, as quais alimentam, não é de hoje, a voracidade do capitalismo. Ou seja, qualquer alternativa política, independentemente da ideologia, acaba freqüentando o genuflexório do mercado financeiro internacional, fazendo com que a economia de países diuturnamente vilipendiados seja entregue a um pequeno grupo de gângsteres engravatados que, como sempre, vive no mais profundo e nababesco anonimato, não deixando rastros e não permitindo qualquer tipo de controle ou ingerência.
Voltando ao churrasco financiado com o dinheiro público brasileiro, Lula caiu na esparrela de Bush, acreditando que o presidente ianque aceitou o convite porque seu carisma e sua liderança em parte do mundo ainda continuam em alta. Desconfiado ao extremo e protegido por sua “entourage” de maneira que pode ser rotulada como obsessiva, George W. Bush não é aquela figura tola e bobinha que muitos tentam tirar das inusitadas quedas e tropeções. Bush Júnior é uma águia da pior espécie, que não perde a mira da presa nem mesmo em vôo cego.
Para se ter uma idéia do ridículo a que Lula se submeteu, convidando Bush para um rodízio de carnes no Torto, enquanto o programa Fome Zero não decola, é preciso analisar o preciosismo da bagagem presidencial americana. Muito além das quinquilharias que um ser humano normal leva na mala durante uma viagem – inclusas as manias de cada um -, não requer nenhum esforço pensar que a mala da versão humana do Darth Vader contém coisas muito mais anormais do que a vã filosofia imagina. Para vir ao Brasil, como acontece em viagens a outros países, Bush trouxe, diretamente da Casa Branca, água mineral, papel para impressora, e, pasme, papel higiênico. Todos os trezentos e noventa e cinco quartos do hotel, ocupados pela comitiva presidencial americana, tinham, em seus respectivos banheiros, papel higiênico gringo.
Como o presidente americano não passa no próprio “derrière” qualquer reles papel, beira o devaneio acreditar que Bush comeu algum pedaço de carne no churrasco oferecido por Lula na Granja do Torto. E se isso realmente aconteceu, contrariando as expectativas deste enlouquecido escriba, não seria utopia alguma concluir que aquilo que um faz e requer papel especial para limpar, o outro deve ter na cabeça desde que nasceu e não sabe.