PARA QUE A VIDA NÃO SEJA UM ETERNO CARNAVAL

uchohaddad.com - 2008

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Idílio amoroso e patrulhamento ideológico

Quem, ao longo da era plúmbea do país e do reinado do AI-5, assistiu ao sangramento da consciência brasileira, que clamava silenciosamente por liberdade política e de expressão, fez do retorno da democracia uma festa a que muitos lutadores – aqueles de verdade – jamais puderam participar fisicamente. Mesmo assim, a sobra da massa pensante brasileira comemorou como se fosse a conquista de um grande prêmio.

No campo da ideologia foi uma grande vitória, mas estamos verdadeiramente distantes de uma real democracia, onde liberdade de pensamento e expressão deveria ser, como garante a Constituição Federal, um direito adquirido. Uma cláusula pétrea. Quando da promulgação da atual Constituição, os parlamentares constituintes acabaram lançando ao leito de uma já conhecida democracia de lupanar, uma colcha de retalhos que atendia, e continua atendendo, aos interesses de poderosos e antipatriotas que deitam e rolam na credulidade do contribuinte.

Considerada a Carta Magna da nação, a nossa Constituição é um conjunto de leis que, inexplicavelmente, depende de outro para que possa produzir os efeitos desejados no âmbito da sociedade. O melhor e mais gritante exemplo de tamanho erro está diretamente relacionado ao artigo 192 da Constituição, que, em 1988, determinava que a cobrança de juros acima de 12% ao ano seria considerada crime de usura, devendo ser punido adequadamente. Porém, patrocinados pelos interesses escusos do mercado financeiro, os donos do poder preferiram se ater aos detalhes do referido artigo, exigindo, assim, uma lei complementar para não sacrificar o povo na hora do crédito. Em tão imundo jogo de empurra-empurra, a discussão sobre a constitucionalidade ou não do artigo e sua automática aplicabilidade se arrastou por anos a fio, transformando-se, durante todo o tempo, em uma generosa cornucópia para poucos e maus.

O tempo foi passando e o povo se acostumando às mazelas produzidas pela voracidade do mercado financeiro e pela inoperância complacente do poder, sempre guardando na alma uma esperança de dias melhores. E eles, os dias melhores, jamais chegaram. Já sem nenhuma esperança, o povo passou a apostar na teoria de que era necessário ter fé para mudar o Brasil, sempre entremeada por ditos populares como pior do que está não pode ficar ou agora chegamos ao fundo do poço. É verdade que a fé move montanhas, mas ela não conseguiu, até então, nem mesmo incomodar o Planalto. Na verdade, a situação piorou e muito, mostrando que o poço, um verdadeiro precipício da indignidade humana, tinha, como ainda tem, muito mais sustos para dar.

Sem esperança, fé e dignidade, o brasileiro decidiu apostar numa tal de mudança. Aquela mesmo que foi prometida no palanque e que até agora não deu nenhum sinal de vida. Talvez esteja sendo injusto por entender que toda mudança deva ocorrer sempre para melhor, mas é assim que pensam os otimistas. Apurados os resultados da última eleição, pôde-se constatar, é verdade, que mudanças ocorreram para pior. Por conta desta situação, volta à baila a teoria de que é melhor sofrer na democracia do que ser feliz na ditadura. Longe de ser uma apologia ao retorno dos anos de chumbo, fica a pergunta do que é democracia.

No tão necessário Aurélio, diuturno companheiro dos que sambem ler, a palavra democracia tem um significado amplo: Democracia – 1. Governo do povo; soberania popular. 2. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder. Ora, ao se levar ao pé da letra o que aponta o dicionário mais popular e soberano do país, percebe-se que nada disso tem acontecido. A tal soberania popular, objeto quadrienal da imunda retórica palanqueira, apenas exerce o direito de sofrer, pagar impostos e calar-se.

Para se contrapor àquilo que o incomoda, o cidadão tem o direito de se manifestar, como dispõe o artigo 5º, inciso IV da Constituição Federal: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Porém, o retorno da discussão sobre a lei da mordaça e o achincalhe do Judiciário e do Ministério Público, ocorrido há dias, leva o país a um surto de retomada da ditadura, desta vez emanada da camarilha rouge.

Correndo o sério risco de não poder se manifestar e ter seu pensamento patrulhado, como vem acontecendo há muito, este patriota, que aqui se transforma em letras verde-louras, começa a correr o risco, não apenas de ser calado, mas também de deixar de ser amado. Pode até parecer uma grande utopia filosófica ou mesmo um devaneio amoroso, mas, ao encontrar um grande amor pelos caminhos da vida, tive ceifada a chance de ser feliz, pelo menos no sentimento, na terra de truculentos que não só babam nas suíças de um ditador caribenho, como seguem à risca a sua cartilha. Ao assistir o descomunal crescimento de um amor inenarrável, fui surpreendido com uma manifestação contrária, semelhante à de um piloto que aborta uma decolagem para o Éden.

À espera do idílio sonhado, recebi, e obviamente compreendi em sua plenitude, uma resposta que atordoaria o mais frígido de todos os seres humanos: ...mesmo com a certeza de que seria a mulher mais amada do mundo, estaria no alvo dos Lulas, dos PT's ou ainda dos Fernandos Henriques da vida... ...iriam me achar de qualquer jeito... ...e não adianta contestar isso...

Assim, nas reticências de um sentimento platônico, fica a pergunta: Com que direito a truculência gauche pode, além de patrulhar e coibir pensamentos e manifestações, aniquilar a felicidade de um cidadão? Provavelmente porque pensam que a felicidade é exclusividade de poucos. E como citei a cobrança exorbitante de juros, sou merecedor, sim, de uma explicação sobre quem irá pagar os juros da inadimplência amorosa que a mim está sendo imposta. De tal forma, resta-me conviver remotamente com o gigantismo de um sentimento nobilíssimo, até que 2007 dê o ar de sua graça. Afinal, como toda forma de amor á válida, o ser humano tem a sacra obrigação de ser feliz. E eu, ainda humano, como não criarei nenhum personagem para viver com a mulher amada, tenho todo o direito de ser feliz e muito amado, é claro!


 

Novo espaço, novo desafio

Comentar o cotidiano sempre foi um sonho, uma meta possível e não tão distante. O grande problema, como sempre, era o tempo e sua ausência. Mesmo que tardia, chegou a hora de cuidar desse carnaval em que se transformou o nosso dia-a-dia.

Muitos me perguntam se estou abandonando o jornalismo político. Não, isto não está nos meus planos. Pelo menos por enquanto. Esta é uma tarefa exclusiva do Criador.

Uma nova página significa mais trabalho, mas opinar é algo que se confunde com o ar que respiro. Existir é escrever e vice-versa. É permitir a renovação da alma, do pensamento e da lógica. É acreditar num amanhã diferente.

Lançar este novo espaço só foi possível a partir da tranqüilidade que os parceiros, conquistados nos últimos tempos, têm me proporcionado.

"Foi na trajetória e na genialidade de um engraxate que encontrei os ensinamentos necessários para descobrir que o sucesso de alguém muitas vezes está no brilho do sapato alheio."

Ucho Haddad

[Este é um agradecimento a João Francisco, meu pai, que a partir de uma humilde caixa de madeira, repleta de graxas, panos e escovas, conquistou uma trajetória digna e o respeito de muitos.]

“A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”.

Mahatma Gandhi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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