Homenagem a uma desconhecida
Por mais que 8 de março tenha sido instituído como o Dia Internacional da Mulher, restringir homenagens a exíguas vinte e quatro horas é falta de sensibilidade em reconhecer as qualidades femininas ou, no mínimo, egoísmo explícito. Desde a folclórica época de Adão e Eva, a mulher vem sendo, de forma contínua, relegada a segundo plano, em uma sociedade machista onde a tipificação da competência sempre foi atribuída à figura masculina. Passados alguns séculos, o mundo percebeu que a capacidade feminina, de forma geral, é mais apurada que a masculina, sem pisotear a importância do homem na concepção do próprio cotidiano. O diferencial feminino é simples e complexo, simultaneamente, mas traz em seu conceito a solução para, se não todos os problemas terrestres, boa parte deles. E trata-se de algo de difícil aceitação para a massa portadora da testosterona: a emoção.
É isso mesmo! Mulheres são movidas pela emoção, enquanto os homens, pela razão. Tanto é verdade, que a diferença entre os sexos delimitou o campo da atuação feminina desde os primórdios, sendo atribuídas às mulheres tarefas tidas como de menor responsabilidade. Recentemente, diante do caos em que se encontra o planeta, chega-se à doce conclusão que solucionar os problemas não está na exatidão pura e simples do raciocínio, mas em algo mais sério e complexo que abunda no universo feminino: a emoção.
A maior prova da disparidade imposta pelo homem está na presença feminina em estádios de futebol. Considerado exclusividade masculina, o esporte bretão tem atraído mulheres não apenas para fora das quatro linhas do campo, como para dentro também. Nos gramados do mundo, mulheres começam a tomar conta, de forma competente, de determinados segmentos do futebol. Na bandalheira em que se transformou o futebol brasileiro, árbitras acabaram sendo eleitas como ícones de austeridade, sem perder o charme e a beleza. No quesito torcida, emissoras de televisão dão enorme destaque à presença feminina nos estádios, sempre sinalizando que a mulher está sob a égide do companheiro. Na verdade, o homem, em mais uma situação, é que deve estar aprendendo a se comportar em relação ao time do coração, uma vez que torcer é uma forma de exercitar a paixão. E para tal, a emoção é mais que necessária, por mais que paixão seja um comportamento doentio.
Ao longo do tempo, a mulher, com capacidade muito mais flexível, acabou incorporando o lado racional do homem, situação que a transformou em um ser competitivo e de alto grau de confiabilidade, quando o assunto é uma decisão mais acertada. Por outro lado, tal binômio – razão e emoção – faz com que desdenhar o raciocínio de uma mulher seja o mesmo que brincar com fogo. Engana-se quem pensa estar enganando uma mulher. Resumindo, pode-se dizer que a sensibilidade feminina, se instigada, é muito mais perigosa que uma partida de truco com Osama bin Laden.
Saindo da descrição filosófica sobre a existência feminina e partindo para uma realidade caótica, coloquei a minha alma de poeta – extirpado o lado crítico de comentarista político – a serviço de uma constatação aterradora. Fato comum que quiçá tange o cotidiano do ser humano, a emoção feminina também é passível de viver atrás das grades, descoberta que transportou a minha imaginação estrófica para dentro de uma penitenciária feminina da capital paulista. Descobri que, na maioria dos casos, a mulher infratora tem por trás do delito cometido uma presença masculina qualquer. É nesta encruzilhada de interesses distintos que se percebe a antítese do comportamento feminino, mesmo tendo sua justificativa pautada na própria defesa. O fato é que, em tal situação, a racionalidade canibal masculina acaba usurpando, consciente ou inconscientemente, do excesso emocional da mulher. Aí sim, o encontro dos opostos pode ser um verdadeiro barril de pólvora, por mais que a supremacia feminina ainda seja sinônimo de retidão de conduta.
Afinal, todos nós erramos por que somos humanos!
Diante de tão abissal descoberta, senti-me na obrigação de não apenas entender, mas libertar o sentimento da mulher encarcerada. Surgiu, então, Sonhos Gigantes – Libertando Sentimentos Prisioneiros. Projeto cultural de múltiplo conceito, Sonhos Gigantes tem como objetivo resgatar a auto-estima e compreender profundamente o conflito delituoso entre a emoção feminina e a razão masculina e suas quase indecifráveis reticências. Nesta empreitada, completo não seria o trabalho se não contasse com a alma feminina e parceira de uma quase irmã, dona de uma emoção com rompantes itálicos, mas verdadeira.
Mas qual a razão para misturar o Dia Internacional da Mulher com a vida carcerária?
Pelo surpreendente motivo de ter me deparado, de forma ampla e genérica, com o cerceamento da liberdade de pessoas tão sensíveis e especiais: as mulheres.
Muito antes do início de sua aplicação, Sonhos Gigantes proporcionou-me uma emoção profunda. Tal e qual as reeducandas – assim é que são denominadas as prisioneiras – tive, como de fato ainda tenho, o sexo oposto como patrocinador de tal emoção. Em reunião diretiva e preparatória, tomei conhecimento da tentativa de suicídio de uma interna da penitenciária. Naquele momento, mergulhei em perguntas que convergiam sempre para o lado dos porquês. Chamada à direção, a detenta explicou os seus motivos – todos emocionais – recobrando a razão de viver ao tomar conhecimento da aplicação, em breve, de cursos ocupacionais. Sem conter o sentimento, mas mantendo a aparência de quem participava de uma reunião administrativa, chorei por dentro. Na verdade, solucei emocionadamente por conta do comportamento de uma mulher. Tive, pela primeira vez na vida, a sensação de que lágrimas caminham para trás, podendo, como de fato fizeram, inundar a alma de emoção.
Ali, naquele momento, estava a maior recompensa não só de Sonhos Gigantes , mas da minha existência como ser humano. Proporcionar a continuidade da vida de alguém que é muito mais emoção do que razão: uma mulher, independentemente da transgressão social que tenha cometido. Até porque, a nós, seres humanos, cabe a responsabilidade de não julgar o semelhante, mas, principalmente, compreender a alma alheia, em especial a feminina.
Longe de ser uma manifestação fantasiosa em prol das mulheres, como muitas que provavelmente acontecerão no dia de hoje, e descartando a possibilidade de um casuísmo irresponsável e oportunista, reconhecer a tão necessária presença feminina em todos os estágios da sociedade é, muito mais que um dever, uma emocionante obrigação.
Assim, se homenagear as mulheres é um exercício imposto pelo calendário e represado em um só dia, minha homenagem se concentra, de forma plena e inconteste, nesta ilustre e corajosa desconhecida que recobrou a esperança de vida na inexplicável catapulta da emoção.