Tá se achando (terça - 19/02/08 - 15h17)
No Brasil, assim como nos países subdesenvolvidos, "você sabe com quem está falando" é o que mais se ouve quando algum entrevero vem à tona.
Porém, aqui na nossa Botocundia querida, que ainda carrega o ranço das capitanias hereditárias, ser "filho de fulano" é o passe-livre para o mundo da irresponsabilidade.
Quando ainda era uma ilustre desconhecida, a cantora Maria Rita, filha da genial e insubstituível Elis Regina, trinava no sub-solo de um boteco badalado da Paulicéia Desvairada, como se estivesse no nova-iorquino Radio City. Era o começo da carreira, e tudo acontecia à sombra do talento materno.

Agora, sem ter mostrado até então a que veio, Maria Rita simplesmente zomba do público que torra o suado dinheiro para vê-la cantar.
Conforme nota publicada na coluna de Hidegard Angel, no JB, Maria Rita, no último sábado, deu canseira de mais de uma hora nos que foram ao Citibank Hall, no Rio, para vê-la.
Depois disso, a filha de mãe ilustre e famosa, com sua conhecida soberba e humildade de encomenda, entrou no palco e cantou, sem dar a menor explicação.
Estivesse viva, Elis Regina teria corado de vergonha. E como boa educação não se compra na mercearia da esquina...
Um pouquinho de Brasil iá-iá (terça - 19/02/08 - 12h21)
Longe de querer ser um filólogo para analisar o neologismo safardano que a Vênus Platinada criou - o casamento inter-racial - não posso deixar de citar um dos mais geniais e completos poetas brasileiros. Manuel Bandeira.

O homem da Passárgada, um dia, soube tão bem traduzir em verso o convívio entre brancos e negros, à época chamados de "pretos". Preto é cor, negro é raça.
E foi em "IRENE NO CÉU" que Manuel Bandeira destilou talento e sabedoria.
IRENE NO CÉU
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Agora imagine só a afro-descendente Irene entrando no céu e tendo uma conversa inter-racial com São Pedro.
Globo e você, nada a ver!
Falta do que fazer (terça - 19/02/08 - 12h21)
Um dia, ainda na década de 80 do século passado, encontrei, perdido em uma estante, o livro "O Videota", de Jerzy Kozinski, que conta a trajetória de um jardineiro que passou boa parte da vida em um mundo absolutamente restrito, mas era considerado um gênio por suas parábolas e metáforas.
Refiro-me à obra de Kozinski para traçar um paralelo entre a genialidade do jardineiro ermitão e a ignorância que brota dos atuais programas da TV tupiniquim.
Enquanto a Vênus Platinada, por exemplo, dissemina o desconhecimento a partir do enfadonho Big Brother Brasil, a novela das oito (sempre começa às 21h), no capítulo desta segunda-feira, trouxe uma expressão nova. O "casamento inter-racial".
Trata-se de mais um preciosismo mambembe da emissora do Jardim Botânico, que com aristocracia gramatical tenta camuflar suas próprias mazelas.
Casamento inter-racial é algo absolutamente comum em um país miscigenado como o Brasil. Trata-se da união de uma galega com um negrão. Ou vice-versa. Essa coisa de esconder a verdade sob o manto do politicamente correto é besteira.
Casamento inter-racial é algo muito parecido com essa invencionice barata chamada afro-descendente. Ou é branco, ou é negro. E negro é negro, com muito orgulho e ponto final.
Com uma mãe de criação negra e com irmãos adotivos também, perguntei a eles sobre esse tal de casamento inter-racial. Ficaram todos com cara de Monalisa na TPM.
E quem inventou essas besteiras que me explique em qual categoria se encaixam o "negão que vem descendo a ladeira" e a "nega do cabelo duro", cujo cabelo não é qualquer pente que penteia.
Gente sem vergonha (terça - 19/02/08 - 11h56)
Na última semana, comentei sobre a declaração de dom Cláudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo e atual prefeito da Congregação para o Clero - uma das mais importantes divisões da Igreja Católica, que culpou a imprensa pelo excesso de exposição na mídia dos casos de padres envolvidos com pedofilia.
Ontem, no Rio Grande do Sul, um padre responsável por uma escola para jovens, no interior do estado, foi flagrado em atos obscenos com uma garota de 12 anos. Afastado do cargo e suspenso das funções religiosas, o religioso pedófilo foi encaminhado a um presídio gaúcho.
Um de seus superiores imediatos, escalado para comentar o assunto, lamentou o episódio, dizendo que a gravidade do caso aumenta por conta da quaresma, período que antecede a Páscoa, segundo as tradições católicas.
Quer dizer então, Dom Cláudio Hummes, que se não fosse a quaresma o crime seria menor?
Repetindo o que escrevi na sexta-feira (15), certo estava meu saudoso pai quando desconfiava de homem de saia.
A velha e boa aritmética (terça - 19/02/08 - 11h35)
Muita gente deve estar se perguntando como o presidente Lula, de acordo com a pesquisa CNT/Sensus, pode estar tão bem avaliado na opinião dos entrevistados. As explicações, fáceis para quem conhece os escaninhos da política, são bem compreensíveis.

O Instituto de Pesquisas Sensus foi contratado pela CNT, a poderosa Confederação Nacional dos Transportes, entidade que congrega empresários e profissionais do setor. A CNT, como é sabido, está de olho na dinheirama que o presidente Luiz Inácio reservou para o setor de transportes no empacado PAC. Ou seja, ninguém, em sã consciência, colocaria para assar a galinha dos ovos de ouro.
Outro detalhe a ser considerado é que a pesquisa foi realizada em 136 cidades brasileiras, sendo que o universo de entrevistados foi de 2 mil pessoas.
O Brasil tem 5.562 muncípios e mais de 180 milhões de habitantes. Resumindo, a pesquisa foi realizada em 2,45% das cidades brasileiras e ouviu apenas 0,01% dos cidadãos da Botocundia.
E cada um conclua o que quiser, porque a censura anda solta.
Anteriores