Barrados no baile (sexta - 01/02/08 - 7h55)
A decisão da Justiça do Rio de proibir a escola de samba Unidos do Viradouro de colocar na avenida Marquês de Sapucaí um carro alegórico alusivo ao holocausto mostra que o Judiciário só é lento quando quer.
Atendendo a uma solicitação do presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, Sérgio Niskier, a Justiça determinou multa de R$ 200 mil em caso de descumprimento da decisão por parte da escola.
Não é de hoje, as escolas de samba buscam na História e na Literatura inspiração para seus enredos carnavalescos. O que a Unidos do Viradouro pretendia era um protesto contra a barbárie comandada por Adolf Hitler, e não uma exortação do nazismo.

Levando-se ao pé da letra o raciocínio do Judiciário carioca, é preciso suspender a execução daquela marchinha de Carnaval, de 1960, que fala da cabeleira do Zezé e coloca o profeta Maomé ao lado do transviado.
"Olha a cabeleira do Zezé / Será que ele é / Será que ele é / Será que ele é bossa nova / Será que ele é Maomé / Parece que é transviado / Mas isso eu não sei se ele é...
Em outra marchinha, desta vez de 1939, Maomé e Allah aparecem lado a lado na versão original da letra que traduz o calor do deserto do Saara.
"Chegou a nossa caravana / À frente vem Maomé / Atravessamos o deserto / Sem pão e sem banana... / Sem água pra fazer café / Allah-lá-ô ô ô ô ô ô ô / Mas que calor ô ô ô ô ô ô."
Fora da rota carnavalesca, não se pode deixar de lado o polêmico Raul Seixas, que com Paulo Coelho compôs uma música que passeia pela fé mundial, colocando Moisés e Maomé em situações opostas.
"Eu nasci há dez mil anos atrás / E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais / Eu vi Cristo ser crucificado / O amor nascer e ser assassinado /Eu vi as bruxas pegando fogo / Prá pagarem seus pecados, eu vi / Eu vi Moisés cruzar o Mar Vermelho / Vi Maomé cair na terra de joelhos / Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes / Diante do espelho, eu vi."
Antes de finalizar, Adriana Calcanhoto, dona de uma voz de beleza ímpar, gravou a música "Saiba", de Arnaldo Antunes, que muito inocentemente fala de Maomé.
"Saiba: todo mundo teve infância, Maomé já foi criança".
Desse imbróglio tira-se uma lição e confirma-se uma tese. A história não pode ser mudada e o anti-semitismo tem no povo judeu sua fonte de alimentação. (Foto: Catherine Krulik)
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